O dia assinalado pelo meu caro António traz-nos as mais vividas memórias, todos sabemos onde estávamos nesse dia e o que deixámos de fazer, que hoje se misturam, não sem um considerável esforço imaginativo por parte da administração Bush, com outros retratos de violência indizível tirados nos escombros dum país assolado pelos mais destrutivos e sectários apetites. Embora seja discutível se a responsabilidade cai inteiramente nos ombros duma politica americana, maioritariamente solipsista, de intervencionismo mal conduzida, ou se é devida a uma incapacidade dos iraquianos de se organizarem e lutarem pelos seus próprios direitos, teoria absolutamente vergonhosa avançada agora pela totalidade do espectro político americano, o que não está sujeito a debate é que o mundo pós 11 de Setembro configura-se mais desorganizado e assimétrico do que alguma vez poderia ser calculado. Este cenário é da responsabilidade de alguém e o ónus da prova recai sobre os americanos e aqueles que apoiaram a intervenção militar no Iraque.
Celebra-se o sexto ano desde o 11 de Setembro e o quarto ano de ocupação americana em solo iraquiano. Apesar do peso semântico da palavra ocupação parece-me essencial que permaneçam forças militares americanas no Iraque, até que se atinja uma situação de alguma estabilidade, não sendo a menor das razões o apoio aos curdos que durante todo este doloroso processo têm provado ser merecedores do esforço investido. Nesta semana assistimos também à validação, mesmo que suspeita, do cerco a Bagdade por parte do General Petraeus e à promessa de avanços reais na conversão dos iraquianos à ideia de que os insurgentes só minam a normalização das condições na região. Não se pode chamar a isso más noticias.
Não tendo a pretensão de invocar qualidades heurísticas nesta intervenção deixo só uma pergunta: a 12 de Setembro lia-se no Le Monde “Nous sommes tous américains”, sentimento penso que partilhado por todos, mas hoje seis anos depois o que é feito desse capital de solidariedade?
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
O pós 11 de Setembro
Publicada por lpnascimento em 9:34 PM
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7 comentários:
...desculpe mas terá de traduzir os termos mais "eruditos" tais como "solipsista" (???) ou "heurísticas" (???) pois julgo que estará a par da minha parca cultura política (bem evidente ao jogar o adorável Trivial!!!)
Bjos madeirenses
Uma análise bem elaborada Luís Pedro. A mim também ne parece essencial que as forças americanas permaneçam no Iraque. Mas sinceramente não tenho resposta para a pergunta: "Até quando?". A maioria dos Inglesas acha que a Invasão ao Iraque foi o "calcanhar de Aquiles" de Tony Blair e da sua administração. Vão ainda mais longe ao pensar que o Ex primeiro ministro inglês se colocou de "rodillas" perante o seu homologo americano. Blair defende-se afirmando que as suas convicções são inabaláveis e que só o tempo irá (ou não!) dar-lhe razão. Sempre admirei a conduta de Tony Blair e por isso afino pelo mesmo diapasão.
Permitam-me meter o "bedelho" nesta discusão.
A velha teoria da ciclicidade da Historia penso que se emprega aqui brilhantemente.
Tenham paciência e acompanhem-me nesta analogia:
1945: os EUA movimentam um numero de tropas sem nenhum precedente,para o continente europeu.
2003: o mesmo acontece no Iraque
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Pós 1945: A Europa quebra claramente em duas facções antagonistas, o Bloco de Varsóvia e o Ocidente democrático.
Pós 2003: O Iraque entra numa espiral de conflitos entre duas facções: Sunitas Xiitas.
A Doutorina norte-americana para a Europa pós-guerra sempre foi a onda democratizante. O bloco democrático a pouco e pouco iria demonstrar aos seus concidadão encarrulados em regimes totalitários, que a melhoria do seu estilo de vida, era algo que valeria a pena lutar.
Resultado: Em 89 cai o muro, desencandeando uma onda democratizante fortíssima, que só teve o seu final à pouco tempo com a revolução laranja na Ucrania !!! 60 anos depois!!!!
Isto pode ser um pensamento a transbordar de optimismo, mas eu sinceramente acredito que o mesmo acontecerá no Iraque. Com tempo e paciencia, a Historia se repetirá. O Iraque acabará por se estabilizar e transformar-se-a no ponto de origem de uma nova onda democratizante que varrerá o médio oriente.
Quanto à pregunta do "Até quando?" Só há uma resposta: enquanto for necessário! Não se esqueçam que na Coreia, os EUA não se preguntaram até quando...continuam lá à mais de 50 anos, e se forem necessários mais 50, a resposta será sempre a mesma! Enquanto for necessário!
Um abraço à malta toda.
Solipsista?
Heuristicas?
Oicam o que eu vos digo: o puto faz-se.
Responderia ao amigo Manel da seguinte maneira:
a) Em 45 os americanos movimentam de facto um número considerável de tropas para o continente europeu em resposta aos milhões de soldados soviéticos ainda presentes no terreno, num enquadramento que se previa bipolar, com o objectivo de fazer prevalecer um projecto político e com um plano efectivo sobre como fazê-lo.A vontade democratizante é questionável, sendo Portugal disto um bom exemplo: a falência do evangelismo democrático americano. Este plano para o Iraque falhou, a ameaça que Hussein representava para as nações ocidentais era negligenciável e as consequências da acção militar são mais nefastas do que se poderia imaginar, graças a uma completa inabilidade de antecipar e precaver, por parte dos americanos, as reacções dum Iraque pós Hussein.
b) A Cortina de Ferro cai sobre a Europa dividindo-a em duas facções políticas. As fracturas presentes no Iraque são alimentadas por uma matriz religiosa e transnacional, num país que exercia força para reprimi-las, mas que podia ser chamado, na falta dum melhor termo, secular numa região adversa a tais princípios. Concordemos que a osmose entre política e religião é perigosa e central a esta discussão e que nesta perspectiva existem regimes e reis corruptos que obrigariam necessariamente, à luz da coerência, a intervenções mais apropriadas que a do Iraque.
c) É redutor afirmar que os Sunitas e Xiitas lutam entre si; esta conclusão não dá espaço à dimensão dos conflitos entre os Sunitas e entre os Xiitas. O Iraque é hoje um país entregue à barbárie dos partidos de deus, afirmação que seria facilmente desconstruída antes de 2003. E é na base da diferença entre disputas seculares e disputas religiosas que o argumento do Manel peca.
d) A invocação do voluntarismo americano na segunda metade do século XX é contraproducente. Essa disposição não é verificável hoje, a vontade de abandonar o Iraque é palpável, os EUA não se comprometerão com um cenário de guerra longo como é observável na retórica americana bipartidária.
e) Finalmente, resta ao Manel responder se acredita num Iraque unitário, impossibilitado hoje pelas disputas referidas, ou se prevê um Iraque dividido em 3 facções, teoria rejeitada por mim, e como tal sujeito às mais ruinosas cobiças externas.
Compreendo perfeitamente os teus argumentos. Concordo inteiramente com o teu diagnóstico, apenas discordo com o teu pessimismo.
Todos os problemas que apresentas-te: disputa secular entre facções, promiscuidade entre política e relegião, o perigo do fracionamento do país, só poderá ser resolvido de uma maneira. Estabilidade!
O conceito da democracia filtrada para muitos é um contra-senso, mas para mim é a melhor maneira de arrancar com uma democracia num país neste momento adverso a tal ideia. É necessária uma força estrangeira, que filtre as fações radicais dos orgãos de poder. Os mulçumanos moderados existem! Só não precisam de tempo para impor as suas ideias! (vejam a Palestina onde nao foi aplicado nenhum filtro, resultando na subida ao poder do Hamas)
Como já devem ter precebido, a pedra de roseta desta argumentação, é a manuntenção das tropas americanas no Iraque. Sem este facto, a calamidade será uma questão de tempo.
Eu vejo em alguma opinião publica americana, a ideia da importancia em manter os seus jovens no Iraque. Acho que neste momento (eleições) não é a melhor altura para defender esta ideia em publico. Mas não tenho duvidas, que seja qual for o candidato vencedor, quando chegar à altura de vestir a farda de Comandante-Chefe, todas forças irão fazer com que a retirada seja considerada impossivel. Mesmo que os argumentos militares não sejam eficazes, a "real politics" do petrodollar irá prevalecer.
Quanto ao Iraque dividido em 3 nações, para mim seria o equivalente ao apocalipse da politica do medio-oriente. Esse facto teria repercursões inimagináveis, que tem que ser evitado a todo o custo. Como? Mantendo as tropas americanas no Iraque.
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